quinta-feira, dezembro 20, 2012

Sobre as piadas do fim do mundo

Fim do mundo é o que vivemos aqui e agora. Se ele acabasse, ao menos haveria a chance do recomeço. Não pela falta de beleza, prazeres, tato. Não pela falta. Mas pelo excesso de pessoas que não viraram (e nunca chegarão a ser) gente. Ao menos não neste mundo. Essa é a maior piada!

sábado, dezembro 15, 2012

Efeito verão:

chuva pra lavar as vadiezas do coração.





quarta-feira, dezembro 12, 2012

Aguardente

Era uma recordação alegre do meu pai, sempre foi e continua sendo. Mas hoje em dia é compartilhada com você. É bonito de ver como a vida é feita de ciclos e aprendizados. O que antes pra mim não passava de um único sabor e cor, hoje é enorme, é cheio. de cheiro e de gosto. Um dia desses estava em um bar e o assunto da mesa era cachaça. Me peguei falando sobre a Áurea Custódia e explicando onde vendia e até o valor. Conversei sobre barris e, sem nem perceber, indiquei a Mandacaru como uma boa opção amadeirada e mais em conta.  Em seguida me veio você em um balãozinho da lembrança, entre uma bicada (como você diz) e outra. E a gente experimentando algumas, várias, todas. Sorrisos e sorrisinhos. 

Descobrimos juntos o sabor um pouco mais ardente da vida. Obrigada.


Recife - Outubro de 2011.

* Na imagem, um copinho (devidamente roubado) da Pitú, mas o líquido era Carvalheira. Ô glória!

sábado, dezembro 08, 2012

Taberna do Leme


- O Leme é o meu lugar naquela cidade e você precisa conhecer o Taberna. promete que vai lá?
-Prometo.


Foram essas as palavras que você me disse naquela tarde de sol em Recife, dentro daquele quarto branco, suporte de pilhas e mais pilhas de morfina, tédio e horas, várias. Tua voz firme forçava uma tranquilidade e esperança enquanto teu corpo devastado pelos remédios fortes, cirurgias, cansaços e amputações insistiam no contrário.  E enquanto conversávamos amenidades, entre um e outro 'everythings gonna be alright'', meu coração só queria te dizer aquilo que você já sabe: o melhor tio do mundo acompanhado de uma tuia de lágrimas. Mas é que nessas horas dizem que é pra ser firme, forte e não demonstrar desespero. Que é preciso ser gente grande e que o outro não precisa de rostos tristes. de pena. de nada. Mas eu não sinto pena, sinto amor. E era isso que eu queria que você soubesse, de coração. Pois você tá acostumado a conviver com pessoas carregadas de orgulho e mágoas, um negócio que não serve de nada, aliás, serve sim, serve para acumular um tumor no meio do coração. 


Não sou feito as suas filhas, não sou feito sua ex-mulher, não sou como a minha mãe, que é tua única irmã e a pessoa mais teimosa que já conheci nessa vida. Elas são adultas demais pra entender que tem uma hora na vida em que poucas coisas valem tanto quanto o coração, o perdão, o resgate e um abraço, longo. E que quando o coração  pára e as pessoas se despedem, não há o que ser feito. E que lamentar é uma das coisas mais deprimentes e nocivas do planeta. Mas eu não consigo fazê-las entender isso e me sinto uma merda por tal motivo.

Hoje compreendo que nossa vida de encontros e desencontros pode ser dividida em duas partes: a parte do sorvete de sobremesa, cantoria madrugada adentro, viagens, sorrisos, piscina, me jogar pra cima, coceguinhas, mala maloca.

E pela parte dois, aquela em que comecei a chorar a tua morte. Chorei pela primeira vez quando repentinamente e sem o mínimo de cuidado da parte dos que já sabiam, eu soube da tua primeira doença. Chorei de susto, pois era menina demais pra compreender que meu Tio Cid tinha aids, a mesma doença de Cazuza, doença de TV.  Depois me tranquilizei, pois você já carregava o vírus há 20 anos e no lugar de coquetéis você se entupiu mesmo foi de drogas, cerveja e rock and roll - e nunca havia morrido. Chorei novamente quando você teve uma infecção e ficou internado no hospital. Te visitei algumas vezes, com cartinha e silêncios de amor. E depois novamente, com alguma outra complicação. É impressionante como a partir do instante em que soube do primeiro problema, todos os outros se desencadearam com tamanha velocidade. Até um mês antes de eu saber de uma coisa que existia há 20 anos, você nunca havia tido mais nada. E hoje estás aí, condenado à morte. E foi por ela que chorei novamente quando soube do teu câncer. E do buraco na barriga. E dos meses no hospital. Chorei tua morte quando tiraste teu sexo e sobretudo quando ouvi tua voz ao telefone como se nada tivesse ocorrido, com direito a risadas, planos, piadinhas, a preocupação de saber como eu estava indo no meu emprego novo e a audácia de me contar que havia acabado de fechar um negócio incrível e comprado um prédio inteiro. Chorei tua morte a cada ligação do meu pai, esperando a tal notícia, aquela que nunca veio.

Mas ontem sua voz já não era a mesma. Já não estava animado em ser proprietário de um prédio inteiro, não estava confiante nos remédios e a morfina já não suportava tua dor. Não fizeste brincadeira, não falaste que adorava ser internado (pois os remédios te davam alguma onda) e que a Cibele é chata mas tá te aguentando. Não me cobrou um texto meu. Não perguntou como estava o trabalho e não me chamou de mala maloca. Pelo contrário, adiantou o fim da ligação como quem adianta que uma notícia ruim está próxima, dobrando a esquina. À noite você proibiu que todos te vissem.

Pagou cemitério, casou no papel, vendeu os bens, dividiu pedaços de parede e concreto e de concreto mesmo só restou tua voz solitária ao telefone, falando essas coisas para a minha mãe, que friamente ouviu tudo sem uma lágrima de canto de olho. Tem vezes que a minha mãe é gente grande até demais. Tem horas que a pessoa precisa chorar, eu gritei ao seu lado enquanto ouvia ela te respondendo ao telefone "ahan, ahan, ahan". VAI SE FUDER. Gritei internamente, em vão. E fui embora.

Eu comecei a chorar tua morte ainda novinha e desde então não parei mais. Chorei tua morte por todos esses anos e você nunca morreu. Hoje, estranhamente, choro mas sinto-me tranquila no peito. 


 Só agora compreendo que ao menos pra mim, você não morre nunca mais.

quarta-feira, novembro 28, 2012

Riso bom

Riso bom é riso farto, largo, raso. Riso carregado, fundo, frouxo ou silencioso. Riso com os olhos, a boca ou o corpo todo. Riso bom é riso que falha, que engasga, admira. Riso sem tamanho, vez ou agonia. Riso na hora, agora.  Riso de canto de boca fechadinha, prolongado, que vem antes ou depois do fato: seja a pé ou naquele ônibus onde as pessoas te olham com a constatação de um ser maluco estar dividindo o mesmo ambiente. Ou um ser que é feliz por natureza ou no mínimo contente. E é nisso que eu acredito: absolutamente. Sorriso bom é sorriso verdadeiro.


segunda-feira, novembro 26, 2012

Sobre afeto

Afeto é aquela palavra que a gente escolheu pra determinar que sente uma coisa boa, bonita e leve por alguém. Uma palavra que está livre de toda e qualquer responsabilidade, travas e pesos. Afeto não vem abraçado ao amor, compaixão e horários. Afeto é involuntário e colorido por tons pastéis.

Eu já tive crença nisso e confesso que sempre tive empatia pela palavra. Mas fui observando a vida e em contrapartida ela foi me mostrando umas coisas que hoje acredito ou acho que acredito: Afeto é o antes, o cerne, o fio condutor de uma história. Antes de ter sido amor, ciúme, raiva, confusão, passeou pelo afeto e suas cores, leves.


Seus cafés, seus cafunés, suas músicas quase sempre tranquilas. E da tranquilidade, das cores e da leveza, em algum instante, se esperou um isso que não veio. Mas como? Se o afeto não carece de cobranças ou de qualquer palavra que lembre esse ato? Afeto é puro e simplesmente a necessidade de coisificar algo que tá alí e que se não tivesse nome continuaria a existir normalmente, talvez melhor e da maneira com que queríamos e acreditávamos que fosse: puro e sem ranços.

Mas não, a palavra é bonita, foi criada depois de já ser naturalmente usada e depois passou a ser manifestada como palavra mesmo: escrita e até falada, causando a sensação mística de estar na melhor das situações e dos sentimentos, até que se caia em uma arapuca silenciosa, e quando vemos, o afeto perdeu o sentido ou ao menos o sentido original de cheiro verde e jasmim.

Sou adepta do afeto, de compartilhar desse bem e continuo gostando da palavra, acho até que ainda mais. Só não me falha na memória ser um sentimento como qualquer outro e que pode ser traiçoeiro se usado desregradamente: pode sufocar mais que amor, ternura ou ciúme.




Meu texto todo podia se resumir a essa foto!
Minha Sofia e sua galinha pintadinha.

quinta-feira, novembro 22, 2012

das constatações

Quanto mais rico, mais pobre das outras coisas.

terça-feira, novembro 20, 2012

A palavra Amor II

Amor são asas, quebradas
Faca amolada
Medida desmedida

Palavra certa
Que tá sempre errada

São certezas de um segundo
É uma troca sem rumo
Uma piada mal contada
São aqueles olhares
Que se encostam
Se amedrontam
Se descruzam
E escapam
Um quase leve bem pesado

Amor são páginas abertas aleatoriamente

Revista na banca
Cigarro de tarde
Uma tarde
Um fim sem início
s i l e n c i o s o


O amor é cheio de vozes
é alto
barulhento
mesquinho
É quase deprimente
e entupido de gente

É um hoje cheio de pressa
Um ontem esquecido
Um amanhã exclamação.



O 'amor' - aquele que nos ensinaram desde cedo - o bonito de tão genuino, na verdade é outra coisa.


É desnome (com o perdão da palavra inventada) e intocável.  


Todo o resto é amor ou simplesmente uma palavra suja, chula ou gasta.

quinta-feira, novembro 15, 2012

a intimidade é líquida

Lágrimas
Saliva
Suor
Esperma

Só se compartilha quando há intimidade

Intimidade pode vir antes do amor
E o amor pode nem vir

Isso também é poesia.

segunda-feira, novembro 12, 2012

domingo, novembro 11, 2012

Em todo lugar - em mim



Doer de saudade por uma coisa que não se viveu - martelada


Doer de saudade por uma coisa que ainda nem se viveu - a esperança


Doer, pelo que se viveu, uma saudade que nunca vai existir - a ilusão

Doer de saudade, agora, meu caro. Dor e dor e dor e dor. Um nó de garganta que não cabe em um choro. Um choro que não cabe em uma palavra. O amor que não cabe em quatro letras.

Enquanto isso, a vida se mostra em cada nuança a sua urgência. 

Para mim, não.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Pra guardar




Ela pensa sobre o pensamento e esse pensamento que resultou ela transforma em papel, envelope, borrifa perfume, carimba um beijo e te envia uma carta de amor...

... de coração pra coração.

around

Silenciosamente em meu travesseiro, que por vezes viro de lado em busca de um conforto frio na lateral da testa e bochecha, como gosto, fico quietinha. E, junto a mim, ele vira espectador dos sons e cores da noite.
 Dessa vez inteira. O carro lá longe. O caminhão lento que faz barulho de panela de pressão. A buzina. A quase batida. O freio. As gargalhadas típicas das madrugadas de Copacabana. O barulho de lombada em carro rebaixado. O silêncio da pausa seguido de um motor provavelmente velho. Não olho o relógio, nunca. E meu tapa olhos, surradinho e folgado, deixa os ruidos ainda mais interessantes. Lá de longe vem um carro de passeio. E outro. O ônibus parou no ponto, depois outro, depois outro - e seguiu. Me pergunto se não eram três 433 seguidos. Não olho o relógio, nunca. 

As portas de ferro no seu jogo de sobe e desce - o único barulho que desperta o sentimento de início ou fim de alguma coisa - anunciavam algo grave: amanheceu, pensei! Olhei o relógio e ele apontava 5h25. As vassouras de piaçava se esfregando no chão - ainda gelado - só fizeram confirmar a chegada do dia - que ainda era noite. E então eu pude dormir em paz.

terça-feira, novembro 06, 2012

la piel que habito

Estou despelando: por dentro.

à Clara

segunda-feira, novembro 05, 2012

domingo, novembro 04, 2012

0h48

De braços dados com a solidão 




ou não (?)

quarta-feira, outubro 31, 2012

Fazer pesquisa sem inspiração é...

Abrir o google como quem abre a geladeira no fim do mês ou da feira - Mil vezes.

terça-feira, outubro 30, 2012

Horário de verão

Vai além da hora que se ganha e do sentimento de roubo do dia. Sem culpa, um dia completo, 360, repleto de. São os cabelos entranhados de sal, os corpos vestidos de sol, o líquido bebido com a velocidade luz. São frutas de todos os gostos e cores. São cores, todas.

E os beijos dados na boca, mesmo que na imaginação.

São pessoas, as feias e as bonitas, devotas de uma mesma alegria: solar.

Eu queria domingo de segunda a sexta. Eu queria aquilo que eu já tive por vários anos e não imaginava, à época, ser tão raro: férias de verão.



Meu Pernambuco querido...

sexta-feira, outubro 26, 2012

O outro



Radioatividade, eletromagnetismo, buraco negro, o infinito azul e marrom, as formas, profundezas, o quente e o congelante, as vidas, o oxigênio, um pedaço dividido, e novamente e novamente e... Até alcançar um pedacinho que não se divide: a molécula da água, H2O, as lavas, os dinossauros.

São tantas questões complexas e, ainda hoje, a que mais me impressiona é do tamanho de um fiapo e que passa tantas vezes transparente pelos nossos olhos: a existência do outro. Ainda hoje acho um absurdo de improvável o fato de existir o outro. Do outro lado da rua, parado no sinal do trânsito, na mesa ao lado, na fila do banco, nas calçadas, o outro que cruza comigo na escada, com gostos semelhantes e outros psicopatas. O outro por todos os lados. O outro que a gente não conhece e nem nunca vai conhecer. O outro que tem um rosto diferente do outro, do outro, do outro.

Nunca vou conseguir entender o fenômeno de existir tantos outros pelo mundo e eu não ter a capacidade de formar o rosto de um que seja, que eu nunca tenha visto, com minha própria criatividade, sem tomar como referência outros outros. E olha que criatividade é coisa que não me falta. Me assusto mais ainda quando ando na rua e vejo milhares deles que eu poderia ter projetado e não consegui. Aí como desafio eu tento novamente, tomando como base a inspiração de ter visto tantos outros diferentes, em vão.

Pra mim, isso é muito mais maluco que os corpos serem feitos de espaços vazios!

terça-feira, outubro 23, 2012

Da minha terra

Saudade é chorar no molhado, pra ninguém notar
No banho, no mar, na chuva
Aquela saudade só sua
Saudade, sabe?
Uma saudade bem nua

http://vimeo.com/51791775

quinta-feira, outubro 18, 2012

Gari



Ando com mania de dismistificar sentires, impressões e versos. Alguns são demais difícies. Tento porque tento decifrar o sorriso dos moços que trabalham pendurados no caminhão do lixo, em vão. Não consigo entender essa coisa da natureza. Queria saber de onde vem a fórmula do sorriso que é mais largo que a caçamba do caminhão, recheado de azedices humanas.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Orgulho às avessas

Não gosto mais de dar a última palavra
Os vazios de depois são por demais enormes

terça-feira, outubro 16, 2012

Fragmento de um todo

Ela morava sozinha em um casarão que ficava em um bairro distante da cidade. Eram necessários 3 ônibus pra chegar alí. A casa, de grande porte, era cercada por árvores, barulho de bichos e solidão. Sempre a perguntavam se não morria de medo de ser assaltada, estuprada ou de ver almas. Sempre se surpreendiam quando ela dizia que esse - o momento de chegar em casa - era o mais tranquilo do dia. Isso foi na época em que ela foi apresentada ao silêncio, as cores da noite e aos sentires mais íntimos. Era bonito. Uma beleza triste. Ou uma tristeza bonita, se tristeza chegasse a ser.

Ela sentia tudo, menos medo.

Medo ela deixava pra sentir nos instantes em que precediam sua chegada ao Km 12 da Estrada de Aldeia.

Era esse o caminho de quase 1 quilômetro que ela fazia, a pé, sozinha, por volta de meia noite, por vezes com uma ou outra moto passando rente aos seus longos cabelos, sempre bem presos pra tentar se passar por homem, e seu canivete - espero que afiado. Todos os dias:



E aí fica explicado o motivo pelo qual aprendi a não temer por coisa pouca.





segunda-feira, outubro 15, 2012

Sobre a morte

a Ferreira Gullar





Hoje sou carne, osso, vento fresco e um monte coração.
Mas um dia, eu bem sei: ainda volto a ser palavra.

Estatística


Eu, Recife e Uísque.

Recife é a cidade que mais se consome uísque importado no mundo...

... E a que menos importa.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Ofício


Imagem: Bansky


Quando a poesia ou mais te faltar:
Embrulhe tudo em um papel com amor
e arremesse aos braços do trovador

quarta-feira, outubro 10, 2012

Concreto



Quem tem os olhos acimentados, não possui nada além do concreto.

terça-feira, outubro 09, 2012

A palavra que já existia antes de seu nome


Arrependimento de coisa boa é, depois de tudo, cuspir num delicioso prato de filé mignon: o maior cinismo humano.

Arrependimento de coisa ruim é, antes de tudo, não ter ouvido o que disseram seus amigos: a maior ironia humana.

segunda-feira, outubro 08, 2012

Hiato semanal


Segunda tem cheiro de café quente, mesmo para os que não bebem. E jeito de silêncio. Não importa o quão bom foi o fim de semana, o humor duvidoso invade os entreolhares e a preguiça de falar se torna máxima. É dia de aceitar sua existência dessa maneira tão quase que sem graça. Dia de respeito com a condição própria e alheia. Uma manhã que nunca acaba mesmo sendo quase terça-feira. Dia de aceitar o marasmo, como um fiel aliado, que tira a voz do corpo inteiro.

sexta-feira, outubro 05, 2012

Sexta



Quem nunca passou uma noitada dormindo em duas cadeirinhas de boteco carinhosamente coladas, não teve infância.

Aos meus pais.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Friday feelings


Copacabana daqueeeele jeito

Hoje é muito sexta-feira, pena que não é!

quarta-feira, outubro 03, 2012

Vô Alcides e suas 82 primaveras


'Não sei se devo comemorar por mais um ano de vida ou se devo lamentar por um a menos', ele me disse.

E então entendi que os vários dilemas da vida seguem por todo o seu percurso, amém!



Foto de 2008 e ele com o mesmo rostinho!

terça-feira, outubro 02, 2012

Rede social

Eram tão amigos que sabiam tudo, tudo, tudinho do outro. Através das fotos, eventos, músicas e das frases de efeito. Notícias diárias, a melhor refeição do dia, emprego e até onde esteve, com quem esteve, a hora e quiçá a razão. A questão é que sabiam tanto, mas tanto do quanto que tinha pra se saber - tanto quanto eu que nem os conheço - que não sentiam mais a necessidade de perguntar.

E foi assim que acabaram sabendo de tudo sobre a vida do outro, menos o essencial.


Essa tal de rede 'social'.

segunda-feira, outubro 01, 2012

Calçada

As ruas
Esquinas
Dobras
da solidão

Às suas
Nossas
Vadiezas
do coração

direito de uso da imagem é exclusivo.

sexta-feira, setembro 28, 2012

Sobre sentimentos vastos

A pirâmide que é ser e estar exposto às moléculas do mundo, de dentro e de fora.

Arpex

quinta-feira, setembro 27, 2012

Você

O nó que é procurar, já sabendo que não tá!

quarta-feira, setembro 26, 2012

'Meu peito é de sal de fruta'

É que eu tenho um coração muito vasto, muito farto, muito fundo: é cadeia alimentar.

E uma alma toda rendada, vento fresco, calor de domingo, sedenta de mundo!

segunda-feira, setembro 24, 2012

O sentido da palavra brodagem

Conversar com meu irmão é sempre uma maneira de percorrer caminhos proibidos, assuntos silenciosos, é querer buscar dentro de minhas falhas algum bom motivo pra caminhar para o melhor, sempre. É começar uma conversa franca, pairar pela tensão de assuntos delicados, saber ouvir opiniões na lata e terminar sempre com uma conclusão, por mais impossível que pareça. É ser eu, eu mesma e todas as que me pertence. É ir embora com sensação de que já houve um acerto, ainda que mentalmente. É querer chorar na frente do computador, é querer dominar o mundo, nem que seja o do meu umbigo e é, mais que tudo, agradecer fortemente por ter o melhor irmão do mundo!

domingo, setembro 23, 2012

Até o fim



À minha volta é tudo beira, abismo, desertos e espaços: vazios. As bordas e eu se misturam, não sei onde uma termina para que a outra comece. Sei menos ainda se há neste cordão uma linha cronológica. Eu sei que tem sim, em mim, uma vontade bandida de ir até o fim.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Recomeço


Quando o depois
Mais que possível *
Pode ser melhor
Que o princípio



Treinando...

* Asterísco mais feliz que o próprio salto.

Fotos por Igor Souza: https://plus.google.com/photos/103357693663776098160/albums/5789019567893548241

quarta-feira, setembro 12, 2012

Amores serão sempre amáveis

Hoje eu acordei com sentimento de sundown e todas as pessoas que passam por mim estão de sungas, biquinis, maiôs e havaianas, ainda que se vistam com camisa de botão e sapato lustrado.

A áurea é de pele queimada, sol fresco e cabelo solto. Escuto as conversinhas de beira de mar, enquanto embarco no entre-sonho em minha canga colorida que só faz acalantar uma boa soneca de praia. E logo alí, o mar me espera, os Dois Irmãos me namoram e o dia é todo beleza. 

Minha barriga mais parece apaixonada de tantas ondas que me envolvem, que dissolvem as coisas que vejo passar pela janela. E nem parece que estou a caminho de tantas horas de serviço no escritório, ar-condicionado e computador.

Já não importa, pouca coisa importa. As pessoas me olham enquanto passam e eu as olho também, sinto no traquejo do caminhar que temos mais em comum do que as horas destinadas a passar. Não sei, só sei que hoje, logo cedo, amanheci Primavera Carioca.

E que esse sentimento dure, ao menos, por toda a estação.

Que show lindo da peste!!! Salve, salve!


Ontem, depois de 20 anos sem subirem juntos em um palco


terça-feira, setembro 04, 2012

Vida longa ao acordo

Já torrei toda a minha intolerância e é por isso que ando regando, faz uns bons meses, minha paciência. E mesmo que minha essência seja de eternos sete meses, tudo é pra ontem e ao mesmo tempo, parei de depositar a responsabilidade no meu signo ou na genética. É possível respirar e criar táticas pra contornar aquilo que sempre pareceu irremediável, sem precisar ser lerda ou besta. O melhor é poder ver o quanto isso traz um resultado brilhante e real, sem ser magia. É puro tato, dia-a-dia.

E vem dando muito certo...


Vida longa ao meu acordo com a tolerância!

sexta-feira, agosto 31, 2012

O dia em que o palco foi outro

- Você sempre fez isso pra conseguir parar os ônibus?

Perguntou o motorista quase morrendo de tanto rir.

Um movimento positivo de cabeça combinado de um sorriso silencioso e quase tímido respondeu que sim. (ainda que a resposta verdadeira fosse "claro que não"). Nem parecia aquela menina que acabara de sair de uma pirueta de ballet, em frente a parada de ônibus, afim de chamar a atenção daquele bendito e único meio de locomoção que sempre passa batido.

Depois desse dia, o 354 nunca mais passou direto da minha parada!

quarta-feira, agosto 29, 2012

Se sempre fosse outra palavra...




... Sempre seria maresia

Atemporal
Devastadora
Infinita

Maresia


Corrói
em devaneios
sobre um mundo
paralelo
chamado
Cheiro

E o sempre também

segunda-feira, agosto 27, 2012

Cigarra

Das minhas memórias afetivas, parte V

Minha Aldeia, meu refúgio particular

Zumbido
Solidão
Coração em verso
Broche seco

Cinco horas
Tarde inteira
Cor de sombra

Úmido, gramas, palmeiras

Quase dia
Quase noite
Quase hora de voltar...
... Mesmo já estando em casa

sexta-feira, agosto 24, 2012

Pé de acerola

Das minhas memórias afetivas, parte IV




Trepada no pé de fruta
Bracinhos esticados
Galhos crespos
Arranhões
Mãozinha cheia
Arremessos
Salto e espinho no pé

Balde cheio

Chã da Peroba

Das minhas memórias afetivas, parte III

 


Carambola verde
Estrelinhas e sal
Sombra
Bunda suja
Terra fresca

Roupas secando no varal

quinta-feira, agosto 23, 2012

Tanajura

Das minhas memórias afetivas, parte II




Durante a chuva
Em casa
A espera pela busca
Farinha d'água na pia
Crianças e adultos:
Euforia

Depois da chuva
Feitiço e alegria
Tanajuras saindo
pelos buracos
Crianças e adultos
alvoroçados
Fogo ligado:
Asinhas e cheiro forte
Por todos os lados

No dia seguinte
Milhões de histórias
E o dilema que matuta:
Todo mundo querendo saber
Quem foi o maior catador
Das bundinhas de tanajura

quarta-feira, agosto 22, 2012

Tamandaré

Das minhas memórias afetivas, parte I




Tatuí
Tu ta í?
Tu ta, tatu
Tá aí?
Tá?
Tu?
Afinal
Cade tu
Tatuí?

Sumiu!


(Fincou em minhas lembranças o V que se formava na areia da praia e as tardes a fio na competição de quem catava mais tatuís. A graça não era em comê-los depois e muito menos a de ganhar o posto de catadora mais ágil. A lembrança mais preciosa que guardo é a companhia da outra e das ondas do mar que esfoliavam nossos pés de areia por todos os dia, a tarde inteira. Pés e mãos Salgados de sal e de sol. E o coração iluminado feito férias de verão...)

O dia 22 de agosto, há 28 anos

Esta data é tão especial e cheia de magia, pela maneira como aconteceu, pelas felizes coincidências e pela vida que fez isso com a gente, que só nos resta comemorar! Por muitos anos as comemorações foram conjuntas, uma celebração de vida e de outras vidas, hoje, por uma questão geográfica, Pernambuco e Rio de Janeiro se encontram em festa: festas astrais... E mesmo tendo milhões de palavras e motivos pra expressar o que esse dia significa, por toda a sua beleza, neste ano eu deixo as palavras com minha mãe, que usou-as com muita sensibilidade e sabedoria. Palavras dela para ele neste aniversário dos dois. De 51 e 28 anos:

'Nosso primeiro aniversário juntos, que cronologicamente você estava completando 4 anos, comemoramos no quartel, em uma festa onde a atração principal era um passeio em um tanque de guerra. Minhas amigas do mundo civil acharam muito estranho isso de comemorar aniversário infantil em um quartel, pois no mundo 'normal' as atrações são  palhaços e mágicos. Hoje em dia, dentro da nossa 'normalidade' de sempre, chegamos a conclusão que sobrevivemos a todos os nossos anos e aniversários em meio a palhaços, mágicos e até aos tanques de guerra... E fomos/somos felizes'.

É isso, sinto o maior orgulho do mundo de fazer parte de uma família onde normalidade e tradicionalismo são palavras que acabaram passando despercebidas pelos anos e acontecimentos. Nosso coração bate no mesmo batuque desde sempre, para nós, relógios e calendários não são reais, pois o mundo já mostrou que nossas almas estão em comunhão desde outros carnavais.


'A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida...'

Parabéns para meus dois amores, mamãe e irmão, no peito!


foto da festa de 2011, após a apresentação de tango de mamis

quarta-feira, agosto 15, 2012

A palavra Amor

O amor cometeu roubo
Ficou tolo, tosco, torto
Virou esquina
Pilhas de livro
ou lâmpadas fluerescentes

Frias, frígidas
Apenas letras unidas

A palavra amor

Usou com quem não devia
Devia a quem não usou
Misturou com cloro
Tempero de arroz e adesivos
Uma mistura deprimente
de horrível
E estragou


Virou pop star
Sucesso popular
Mais usada do que bucha
ou pano de esfregar

O amor se fez
Sempre
de louco

E de tanto usar
a direita e a torto

O coitadinho ficou rouco

Eu quero outra palavra pra usar!

Brincando com a morte


Tão pra nascer duas coisas que se proliferem mais do que caveiras fofas e caquécoisa de zumbis.



terça-feira, agosto 14, 2012

Cúmulo da ansiedade é ...

... No meio do trabalho receber uma mensagem de uma amiga:

'Tem secador de cabelo na tua casa?'

Detalhe: Ela só chega na minha casa daqui a quase um mês.

Secador não tem, mas humor e amor têm aos montes!

segunda-feira, agosto 13, 2012

Dos cheiros preferidos

Cebola, alho e manteiga
Dourando a frigideira

Isso também é poesia.

sexta-feira, agosto 10, 2012

Os sentires sem nomes

Ficam guardados em algum lugar
Onde palavra alguma
Jamais
Conseguiu chegar


Arrisco que são esses os sentires mais profundos.


quinta-feira, agosto 09, 2012

A última da pequena Sofia


Se despedindo de Dona Neta (que cuidava da minha falecida avó):

- Tchau, Dona Neta, bucho de baiacú!

daria tudo pra ver a cara do meu pai!

terça-feira, agosto 07, 2012

Para Caêta

Meus sinceros agradecimentos por tua existência tão vibrante e pelas canções que tanto me colocaram pra dormir e acarinharam meu coração calejado. Obrigada pelos acordes bem amarrados que ininham em meu cabelo, em meus braços e que me pegam distraída em uma tarde qualquer a cantarolar, a chorar, a sorrir, a sentir.

Obrigada por toda a dúvida que sempre me deixou em nunca saber (até hoje) qual é a música que mais gosto e também pelo sorriso sozinho que costumo doar a quem passa, involuntariamente, enquanto te escuto e decido que essa é a melhor, ou essa, ou essa. 

Obrigada, sobretudo, pela emoção que sempre me proporcionou com essa voz. Ah, a tua voz. Sobre essa eu não saberia falar, é feito reza,  fico com a boca seca e um olhar distante, em tempos remotos, futuros e principalmente em tempos  onde as coisas simplesmente acontecem dentro de mim, contra o vento, sem lenço, sem documento, com nada no bolso ou nas mãos, apenas no coração.

Eu te desejo muitos, muito e muitos anos de vida, pois o passar do tempo só te fez bem.


Com amor,

Carlinha.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Viva de saudade


sweet home.

Dá para tecer uma manta
com os fios da saudade
que em mim enroscam.

A manta não vai dar conta
de enxugar o amor
que em mim
trans
bor
da.

Morta Viva de saudade.


segunda-feira, julho 30, 2012

Do amor

Faltando poucos dias para o casamento no civil:


Ele - Amor, tive uma ideia!! Vamos nos casar vestidos com a mesma roupa que estávamos no dia em que nos conhecemos?


Ela -Errr... Então tá bom...

Detalhe: Se conheceram em uma festa junina.

sexta-feira, julho 27, 2012

Todo mundo corre o risco de ser apenas de carne e osso

Hoje eu conheci de Oi uma senhora que me fez atentar para o fato de que existem pessoas que estão na Terra apenas pra sofrer. Que entra verão, sai verão e elas não foram refrescar os pés nas águas da Guanabara. E não foram por falta de vontade ou por ocupação demais com coisas da vida, com doenças, com contas e com amarguras que não abandonam o coração. Com um simples olhar e meio dedo de prosa sobre sua história, é possível saber que as noites passam sem estrelas, que as lágrimas são cotidianas e acompanham os movimentos dos passos, dos pés, das mãos e dos lábios que pouco falam, que murmuram por dentro o verão que passou e o o novo dia que chega, que sempre chega com o ranço do fardo rotineiro, o fardo que é viver.

É possível perceber também que muitas delas nem percebem, nem denominam como fardo, apenas aceitam a condição de que a vida é feita apenas para esperar passar, para o instante em que tudo isso termina e o resquício de ar e de tristeza se esvazie pelo tempo e espaço.


Pessoas são feitas de espaços e algumas delas optam pelo espaço de tempo indeterminado. A vida em um espaço só, só de único e de solidão. Aconteceu, tá acontecido, sem chances de retorno. Às vezes por uma perda, por um abuso ou por conta de um amor mal curado tudo vira espaço, indubitavelmente só.

E tendo essa consciência de maneira mais ampla, penso em duas coisas: primeiro fico ainda mais injuriada com pessoas que não têm problemas sérios e agem como se o mundo tivesse se juntado com os sentimentos ficando contra ela e todos os seus passos. E o mundo vira um mau humor que impera junto com o despertador, o dia de chuva  e todas as coisas normais da vida: trabalho, estudo, relacionamentos, família.

A segunda coisa que penso é que é preciso agradecer, agradecer sempre pelo alívio que me deram de só colocarem nas minhas costas coisas que posso suportar. Às vezes aparecem uns testes cruéis de sobrevivência, dores aparentemente incuráveis, traumas cheios de band aids. E agradeço mais ainda por passar por todas elas em vários espaços de tempo. Agradeço por me permitir errar em situações diferentes, com vários gostos e então aprender e seguir adiante. Seguir adiante, agradeço por essa possibilidade tão bem usada por mim ao longo dos anos e dos tombos.


Me alegra ser humano de sol, de luz e de otimismo. Me alegra , dentro de todo o meu egoísmo, saber que não sou mais uma Maria de luto pra chorar a morte de seu filho, tantas vezes de um filho que sequer morreu. Me deprimem àqueles que enxergam a chuva apenas como o fim de um passeio pré-programado, que não aceitam erros, que deu tudo errado, um cálculo furado e que dentro de seu próprio cerne, aproveita pra fazer conflito com o que não foi e o que não será, nunca.

Me deprimem aqueles que nunca serão: humanos.

quarta-feira, julho 25, 2012

Nua







Pelo tato sigo e sinto todas as texturas.
Ora verão, ora agruras.
Eu vivo, irremediavelmente vivo: nua.

Morning song



Azulzin feito um domingo

sexta-feira, julho 20, 2012

Sexta-feira

Não importa saber
Se faz chuva ou lua cheia
Vou pegar na tua mão
E passear a noite inteira

Não quero nem ver
Se é com vinho ou com certeza
Hoje vou ver o meu amor
E vou brindar a sexta-feira




Das minhas preferidas para a alegria!

terça-feira, julho 17, 2012

O querer que não é seu

Inveja é uma palavra que ao meu ver deveria ser rabiscada do dicionário. Seria menos desastroso se o sentimento existisse sem que a gente soubesse seu nome. Porque haveria junto dele, do sentimento, um outro: sentimento de pudor pra usar esse sentimento escondido. E com pudor, usaríamos com mais cuidado a inveja. Com menos danos, como fazemos com os demais sentimentos que ainda não possuem nome. E então seria um sentimento vivido apenas por um. Cada um com o seu, sem precisar trocar. Inveja não é sentimento feito pra ser trocado, como raiva, ciúme ou paixão. Inveja é como a compaixão, serve apenas para sentir e depois sentir vergonha, palavra esta altamente compartilhável, tanto que criaram a vergolha alheia.

Quem inventou as palavras deveria ter tido mais cuidado ao colocá-las em uso, não sabia os danos que poderiam causar na sociedade atrasada em que vivemos. E que viveremos sempre.


Será sempre atrasada enquanto palavras como a inveja for pronunciada.

sexta-feira, julho 13, 2012

O amor e suas loucuras

Ontem, já tarde da noite, estávamos eu e mamãe na cozinha (lugar preferido dela para papos sérios ou bobos), e entre um gole e outra (dela), um cigarro e outro, também dela, e um olhar de admiração e saudade meu, falávamos com certa nostalgia da época em que tinha mãe, pai e filhos, todos juntos... Ou ao menos na mesma casa. E então surgiu o inevitável e preferido assunto: os bons momentos. Sintonia, magia, músicas. Histórias loucas, paixão, "coincidências". 'Por tudo o que for' na voz de Lobão, pra relembrar. E enquanto falava, seus olhos se direcionavam para cima, lateral esquerda, de quem lembra com amor e brilho. E então voltava seu olhar pra mim, cantando juntas alguns trechos.

E então entramos no assunto separação. No curriculo de meus pais constam duas separações oficiais, uma quase e várias putarias. E foi quando o assunto nostálgico passou do feliz pro de coração batendo em quase desespero com a lembrança de uma cena que, dentre meu acervo de lembranças, esse ficou pra trás, nos meus nove anos. Voltar ao passado é delicioso, mas tem lá seus perigos. É voltar nas fraquezas e passear pela falha própria e dos outros. Nesse caso, acabei rondando o passado do meu pai, que me machucou durante muitos anos pelo não cuidado e militarismo exagerado. Voltar nesses dias, nesses anos tão longos, ao passo que há um incômodo em ver que apesar de ter mudado, aquele era ele, me traz uma satisfação imensa de ver que foi justamente esse jeito difícil e uma criação a ferro e fogo que me fez, certo dia, mandar tudo pra puta que pariu, gritar, me revoltar, arrumar um empreguinho de merda qualquer que me fizesse sair dalí, daquilo tudo.



E foi só por isso que nos tornamos o que hoje somos: cumplices. Após uma conversa sentados no chão, com muitos soluços e revelações. O tal do zero a zero. E foi nesse dia que tirei muitos quilos das minhas costas e também da dele. O que somos hoje é completamente diferente do que éramos, ou, no caso, que não éramos. Quando me perguntavam se eu preferia meu pai ou a minha mãe, naquela pergunta babaca que criança adora fazer, eu respondia que amava os dois por igual, mas era mentira. Fazia parte do programa de perguntas e respostas babacas que éramos acostumados a fazer e a dar. Por mamãe eu tinha amor imenso e gratidão, por ele eu tinha um misto de amor e  medo, logo, ela ganhava fácil.  E foi justamente nesse cenário que eles decidiram se separar pela primeira vez, eu com nove e meu irmão com 13, e meu pai, como sempre, se impôs de uma maneira calculada pra magoar: "Eles ficam comigo e você não pode fazer nada pois eles são apenas meus filhos." Aquela frase que serve pra magoar todo mundo ao mesmo tempo e que deixa a consideração morrer a cada fonema. E assim foi feito, a mando do comandante mor.

Ficamos eu e meu irmão com ele e mamãe foi morar em uma casinha linda com seu filho, meu outro irmão Daniel, de coração. Pra piorar ainda mais a situação, as visitas eram reguladas e a maioria eram feitas às escondidas depois do colégio, enquanto papai trabalhava. Até que em um dia, um domingão de sol, eu ouvi um boato (é, cidade pequena tem dessas coisas), de que minha mãe ia se mudar pra longe e eu não ia mais vê-la. E foi quando eu pedi pra passar o dia na casa de uma amiga que morava em cima do bar da família dela. Cheguei lá e então rodei o bar inteiro fazendo campanha com os rostos conhecidos que tomavam uma cerveja despropositada: "Eu preciso que alguém me leve até a casa de minha mãe".



Oi? Como assim? E após um discurso feito de mesa em mesa, pra quem conhecia e para quem estava acabando de me conhecer, pela situação, eis que um ser se dispõe a deixar a cervejinha de lado e fazer a boa ação. Eu, minha amiga Dayana, ele e o seu caminhão! Sim, eu fiz Seu Ramos tirar o caminhão enorme que ele usava pra trabalho, único veículo que possuia, pra me levar até minha mãe. E então cheguei lá, sem aviso, bilhete ou celular - que não existia na época-  radiante, portões sempre abertos e minha mãe de short de cotton, blusa de algodão, cabelos esvoaçantes indo ao encontro de minhas lágrimas e meus bracinhos magrinhos, trêmulos e desesperados.


Foi nesse dia que descobri que ela estava alí e que nunca, nunca iria me deixar, como falaram. Nem nos meus nove anos e nem nunca mais.

quinta-feira, julho 12, 2012

Uma carta Clara. Uma carta. Uma clara carta para.

"O meu mundo não é como o dos outros
Quero demais, exijo demais
Há em mim uma sede de infinito
Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo
Pois estou longe de ser uma pessimista
Sou antes uma exaltada
Com uma alma intensa, violenta, atormentada.
Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade...
Sei lá de quê!" (Florbela Espanca)


 Neste instante, por mais maluco e desconexo que possa parecer, gostaria de coração (e quando digo coração, é de verdade), que eu fosse sua amiga, apenas para te falar algumas palavras que te deem ainda mais força e impulsionem o ir além, como queres e já estás fazendo. Mais maluco ainda é me sentir pisando em ovos e falando baixinho, pensando baixinho-pianinho, mesmo escrevendo no meu canto, na minha página, com minhas palavras, sem precisar de permissões. É que é delicada a situação, essa que vos escrevo e a que vives. Fosse você alguém do meu alcance e livre acesso, te daria um abraço apertado e falaria: É isso aí! Essa é a hora. Se decidiu, faça valer.

Ou ainda concordaria que esse mundo às vezes é muito cão mesmo, mas que nos é presenteado com uma série de coisas que fazem valer a pena estar aqui, como o amor. Um amor de bem e verdadeiro. O nosso amor. Cada uma com o seu (claro!). Por mais irônico que essa frase possa parecer.

Engraçado mesmo é que apesar de saber de tantos gostos e desventuras tua, até mais do que as pessoas que convivo aqui no trabalho, de piada, de tato, olfato e olho no olho, somos apenas grandes estranhas no mundo perverso que nos cruzou, sem o mínimo de necessidade. E é também sem o mínimo de necessidade que nos cruzamos quase que diariamente pelas linhas, às vezes tortas, às vezes sadias da outra.




Como se fosse um segredo íntimo, um legal não permitido, território de perigo ou qualquer coisa explosiva e de cor. Palavras e mais palavras, que tantas vezes foram destinadas a você e de você para mim, mesmo que no íntimo secreto da nossa falta de discrição. Ou apenas de nossa falha humana de querer ser, querer mostrar ou apenas, não-simplesmente, de torcer à distância com uma espécie de apatia ou até mesmo carinho criado ao longo das situações. Um big borther da vida real.


E mesmo as pedras atiradas, os gritos embutidos em uma tela de computador e as insinuações com pouco fundamento, minha e sua, não me fizeram ter raiva no final das contas. É perceber que somos tão humanos que fazemos valer nosso 'direito' de errar, de correr fora da estrada e sair atropelando mesmo sem ver a quem, mesmo sem conhecer a quem. Mesmo que esse 'quem' seja do bem.


Ou simplesmente alguém como nós, na busca eterna por algo que não vem, simplesmente porque não existe: a danada da perfeição.

terça-feira, julho 10, 2012

Um pedido de desculpas e todo o meu amor

Eu descobri faz mais ou menos uma semana que eu amo Arthur. E descobri isso de maneira tão repentina que chega me assustei. Feito tapa nos ouvidos. Estranho mesmo seria não amá-lo, afinal, é meu irmão. Mas em uma competição desvantajosa com Sofia, ele acabava sempre ficando no escanteio. Depois da palavra escanteio eu poderia completar com uma vírgula e um coitadinho ponto final, mas não carece, pois fora o meu amor ainda novo e em fase de amadurecimento, ele é carregado de afeto, tanto quanto a pequena Sofia. Não me culpo pelo feito 'tardio', o convívio com eles foi tão desproporcional quanto a competição (que nem existe). Sofiazinha tem 3 anos nos quais o primeiro eu acompanhei de perto, diariamente, o segundo eu participei semanalmente e o terceiro, à distância. Essa tal que me mata. Com Arthur não tive a mesma chance.

Quando ele nasceu eu já morava sozinha e confesso que entre usar minha visita com brincadeiras de dois anos e sorrisos para um bebezinho que só ficava no "moisés", eu optei por pulos na piscina, fotografias e palavras novas. Pode ter sido injusto ou egoísta e isso se concretiza quando lembro daquela voz de molequinho no telefone na semana passada: "Oi Cacá!!!" "Oi, Sofia, como você tá?"

E então meu pai e Jó dizem que na verdade era Tutu no telefone. Quase passei mal de tão impressionada com a constatação de que ele já esta falando! E estava falando tudo, inclusive meu  nome... E eu nem me dei ao trabalho de ensiná-lo, como fiz com Sofia.


Lindos!

Não foi aí que descobri que o amava, apesar disso ter sido mais um sinal. Foi poucos dias antes, quando acordei com ele na cabeça e com um sorriso tão gostoso que chega me deu vontade de chorar. Na minha imaginação ele tava igualzinho ao meu irmão quando pequeno. E eis que ontem Jó me envia uma foto dos meus dois pixotinhos juntos pra confirmar que estão do jeito que sempre imagino, em meus sonhos e preces: luminosos.

Eu e meus amores. Só tenho a agradecer por mais essa pulsação. 

Tutu ainda na barriga sendo registrado por mim : )

segunda-feira, julho 09, 2012

Merchan : )

Forte de Copacabana e Arte de Portas Abertas & Às margens do Rio Itaparica (BA):




               
Pôr-do-sol de Itaparica



quarta-feira, julho 04, 2012

A ilusão de ser Mc vezes mais feliz

Ontem, ao passar em frente a uma Mc Donalds, reparei com uma tentativa de saudade, que ainda não contribui com o enriquecimento da empresa este ano. E, ao mesmo tempo que tentava salivar um gosto de cheddar do número 4, que nem sei se ainda atende por esse número, ou o molho tártaro do Mc fish, únicos sanduiches que como (quando) como lá, constatei que isso era um ótimo sinal: nada estrondoso aconteceu na minha vida durante esse ano, nada que valesse minha ida ao palhacinho da morte.


Eu não sou politicamente correta, eu ainda como muito doce, mastigo bala, bebo menos água do que gostaria, não como geléia real e não lembro a última vez que comi fígado. Não é uma questão de política ou anticapitalismo, é uma questão de gosto. Até meus 10 anos eu curtia o Mc lanche feliz e aqueles brinquedinhos, depois passei a perceber que a vontade maior de comer outra coisa não compensava um brinquedinho menor que minha mão. E então passei a trocá-los pelo bifum e carne acebolada do restaurante chinês, feliz.


Os anos foram passando e minha frequencia pela "mac", como diz meu pai, só fez cair. Por um bom tempo comi a mini salada com molho ceaser de lá. Era um tipo de plástico que muito me agradava. Depois, passei a dar créditos para o mc fish e seu pão, tão fofinho... Até o dia em que não consegui comê-lo todo, enjoada.


Depois desse dia, voltei ao local algumas vezes pra fazer a social com meu pai em dias de cinema da promoção que íamos juntos. Ele sempre atacava nas batatas, eu ficava no sunday ou arriscava um cheddar. Até que, pronto. Fui morar sozinha e as vezes que comi foram em madrugadas famintas, voltas de festas, alcool no sangue, sede de coca cola de máquina, MUITO gelada.  Depois passou. Além de caro, não conseguia quase nunca terminar o sanduiche com gosto de mc donalds. E então a subway chegou em Recife pra se fazer um pouco presente nesses instantes em que a gente gasta X reais por um sanduba que faríamos em casa, ainda mais gostoso, por X- 10, ou - R$9,90, que seja.


Não sinto falta, mas sinto falta de sentir falta,sabe? Mas aí eu supro essa falta da falta do instante capitalista que nos ronda, com os sorvetes de lá, apesar de ser quase nunca, pois o da Itália é cem vezes melhor!


Acho que foram até saudáveis essas duas vezes que comi em 2011, uma por tristeza profunda e outra por tristeza alheia. É importante reconhecer quando se está na merda. .


Mc Donalds é lugar de gente em falta, que sofre da ilusão que será Mc vezes mais feliz. Lugar cheio, mesmo com tantas pessoas sofrendo de vazios, logo alí, na esquina.




Abaixo vai um texto bacana que fala um pouco por mim:




http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/05/14/como-nao-amar-uma-cidade-onde-um-mcdonald-faliu-por-teta-barbosa-444968.asp

segunda-feira, julho 02, 2012

'O Havaí... seja aqui'


Honolulu, 9 anos atrás.

Éramos feinhos, menor de idade (eu, no caso), o dólar custava quase 4 reais e provavelmente estávamos desempregados.

Hoje, somos considerados bonitos, adultos, o dólar custa metade do que custava e temos carteira assinada... Mas, e cadê o Havaí??

A vida é mesmo cheia de sentido nenhum : )

Detalhe para o colar de orquídea natural.

sexta-feira, junho 29, 2012

Renúncia

Faz tempo que quero escrever um texto sobre isso, mas sempre deixo pra depois, com medo de doer demais. E nós, seres que somos tão humanos, sempre escolhemos deixar para depois as dores que não são urgentes. Pra mim, dores não urgentes são aquelas que, apesar de se manterem vivas diariamente, vêm com proporções e cargas menores que a metade de nossa capacidade de sentir: dor. Mas é quase metade, só não chega a ser porque nós sustentamos. Ou até é, mas como as surportamos, pelas experiências da vida, pelo amadurecimento e pelo "outro lado" bom disso tudo, acabo pensando que é menos que 50%, dentro de minha humildade e também otimismo.


Se passa disso, dos 50%, vira dor emergente, ao menos no psicológico. Procuro manter minhas questões, as administráveis, dentro do limite, dentro do meu suporte, e, graças a Deus ou o que quer que o valha, vem dando certo, há muitos anos. Quando passa do limite, eu sugiro dentro de mim mesma que fudeu e pronto, é "só" sofrer. E é o que nos resta nessa vida além da felicidade ou ostracismo. E depois, perceber, analisar o sofrimento que tivemos, sem medo, por uma causa maior: a de evitar um próximo problema se for possível ou de reutilizar as armas de força que angariamos no decorrer da situação: de dor.

Mas, como estava falando, esse é um texto não urgente, um texto diário. Como ouvir o despertador pela manhã, pegar o ônibus, dar e receber os bons dias matinais, ainda que o dia nem esteja tão bom assim. Às vezes essa dor se torna tamanha, uma espera maior, um final de semana. Um sono prolongado, um pijama, um bordado. É isso, eu bordo a minha dor conforme o tempo passa, conforme os dias passam dando espaço para outros - sempre tão curtidos.



Como posso eu chamar isso que sinto de dor? Saudade é tão mais poético. Acontece que saudade em excesso, saudade diária, saudade de cheiro e tempero, quando reunidas, se personificam em dor. Nessa dor não urgente que tanto falo.


E é como ouvir o despertador pela manhã, pegar o ônibus, dar e receber os bons dias matinais, ainda que o dia nem esteja tão bom assim: nós, seres humanos que somos, sempre nos acostumamos.

Acostumamos com a saudade e até mesmo com o amor e manifestações de afeto a distância.

Só não me acostumo com os altos preços das passagens.

Se Maomé não vai a montanha... : )