quinta-feira, julho 31, 2014

Sobre uma brasileira e um espanhol

- E vocês brigam em que língua?
- Catalão eu não entendo, então não dá. Espanhol eu sei, mas Ferran sabe muito mais e acabaria comigo. Português ele fala, mas não que nem eu, não seria justo... então, por isso, a gente não briga. hehe.
- hehe.

terça-feira, julho 29, 2014

Solução

- Oi, teria TEK bond do pequeno?
- Aqui, moça. Mas me tira uma dúvida, por que isso é bem mais caro que a super bonder?
- É que uma gotinha disso cola até coração partido!
- Aiê, vou comprar logo 3 tubos desse, então.

"Que bicho donzelo da porra!"

É estranho ouvir isso sobre alguém que se deseja o bem, mesmo que distante, mesmo "apesar de". E o pior, sem poder ir de contra à opinião, pular naquele abismo e gritar como uma escoteira: "né assim não, é você quem tá viajando!". Uns poréns aqui, outros ali. Uns pingos nos i's. Umas tentativas de "salvar" o que se afoga sozinho, mas, no fim, ter de concordar em silêncio "É. É meio triste, mas ele é meio assim mesmo". Meio.

Saber chegar de mansinho em terreno novo é tão sadio, completei meu pensamento.

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Pernas e braços de polvo tentando desesperadamente abraçar as pessoas, todas. Quanto mais, melhor. Melhores amigos por conveniência a todo tempo, incessantemente. Brincadeiras mais sem graça que as do tio Carlinhos. Uma falta de noção natural e despercebida, pela tentativa de sutileza. Se alastrar. É isso, esse verbo: alastrar, desejo insaciável. E acabar se queimando no próprio fogo. Ou no purgatório imperdoável da fofoca, o acerto de contas no "juízo final".

Sorriso estampado na cara pra uma fotografia. Lágrimas e coração perturbados no breu da cama fria.

Eu queria poder mergulhar e puxá-lo de volta. Mas não cabe a mim. Queria que fizessem isso por ele, de verdade, até compreender que não dá pra salvar quem sequer sabe ou aceita que precisa de uma bóia. 

Alguém bacana que tá sempre por ai, mas nunca inteiro, dentro de si. 

Hypothetical date

Se cada lágrima que caísse fosse uma palavra, faria aqui um poema. 

*divagação etílica sobre Caê e o momento em que o encontrasse pela primeira vez na vida, travada, sem conseguir dizer um ai. Sim, eu tenho raiva de mim e da minha reação por algo que nunca nem vivi. E que venho me preparado há anos. 

Cada doido com sua doidice.

Sobre a morte III

Quando Sofia descobriu que as pessoas morriam, passou um dia inteiro chorando.

segunda-feira, julho 28, 2014

"A vida não é justa"

 Era o que seu Nelson dizia a Igor que,  vez por outra, me lembrava também. 

Eu não gostava dessa citação. Achava resignada, me dava nos nervos. Como isso podia ser afirmação pra algo que não deu certo sem mesmo a gente ter tido culpa pelo mal feito? Assim, bem normal: "a vida não é justa", com as sobrancelhas esticadas pra cima e um ar médio irônico.

Depois, por tantas e tantas e tantas vezes, essa afirmação ecoou na minha cabeça, sobre mim ou sobre o outro, e só não a transformei em palavra pois não queria cair na minha própria pegadinha da aceitação. Mas não me poupava o pensamento: "a vida não é justa", é verdade, concordava.

Mais tarde ainda, fui obrigada a maturar mais um pouco e aprendi que aceitar muitas vezes além de não ser algo menor, é necessário. E tantas vezes a única coisa sensata a se fazer. Ficou tão óbvio que eu não entendo como não percebi isso antes.  

A vida não tá sendo justa com meu tio. Ele não merecia esse sofrimento tão enorme que carrega e parece nunca ter fim. O fim, agora, se mostra mais perto que nunca. E a dor, em outrora maltratadora, chega rala. Se apresenta fraca e pequena se comparada ao tamanho da força e sabedoria que ele teve durante esse tempo todo.

A vida não é justa. Agora, em voz alta.

sexta-feira, julho 25, 2014

Pra ser água

                                                                                         a Danilo Galvão e Nathalia Queiroz



Pra ser água é preciso, antes, voltar a ser ideia. 

Voltar a ser palavra pra só depois ser toque e tato novamente.  É preciso desfazer-se. Fragmentar-se. Retornar ao broto, ao útero: (re)aprender a ser feto. Mutar do agora, peles, músculos e ossos, pra ser inteiro em outro espaço: de tempo e físico. Sentir cada pedacinho e vagarosamente iniciar o processo: dedos dos pés pra dentro dos pés. Pés entram nas pernas. Pernas se encolhem no centro da barriga. A barriga, agora grávida de dedos, pés e pernas, acomoda-se nos seios. Os seios, fartos de tantos membros, entranham a região do pescoço e promovem um nó bem no meio da garganta. Viramos, então, cabeça e garganta. Até que não suportamos a pressão e explodimos em fragmentos. Entenda: explodir, nesse caso, foi uma escolha. Desfizemo-nos. E finalmente retornamos ao broto, voltamos a ser feto e dentro do útero encontramos um canto quentinho e alentador de novo -  Estamos prontos pra recomeçar.

É dificil ser água. Chegar à essa condição. É doloroso. E é necessário.

Danilo tirou Nathalia de dentro do coração dela. E me devolveu ao meu com essa única imagem .

Natália virou água.

Galeano y los fueguitos

 'Un hombre del pueblo de Neguá, en la costa de Colombia, pudo subir al alto cielo. A la vuelta, contó. Dijo que había contemplado, desde allá arriba, la vida humana. Y dijo que somos un mar de fueguitos. El mundo es eso -reveló- Un montón de gente, un mar de fueguitos. Cada persona brilla con luz propia entre todas las demás. No hay dos fuegos iguales. Hay fuegos grandes y fuegos chicos y fuegos de todos los colores. Hay gente de fuego sereno, que ni se entera del viento, y gente de fuego loco, que llena el aire de chispas. Algunos fuegos, fuegos bobos, no alumbran ni queman; pero otros arden la vida con tantas ganas que no se puede mirarlos sin parpadear, y quien se acerca, se enciende.'





terça-feira, julho 22, 2014

Presente

Eu sabia que aquele era um momento importante. Desses momentos que, se não vividos até a última gota, serão remoídos pra sempre na caixinha solitária das lamentações. A maturidade ensina a perceber esses momentos durante o próprio momento. Uma benção conquistada. 

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Enquanto a tarde caía em tons rosados naquele pedaço de praia de Ipanema, eu não sabia se observava meu pai brincando com as crianças, ainda com força pra isso, ou se participava ativamente das brincadeiras de arremesso de disco e castelos de areia. Pra mim, as duas coisas eram muito importantes e era muito difícil decidir o que viver em cada minuto que ia passando de vida. Apenas vivi como senti que deveria. 

Não sei se distribui bem meu tempo entre assistir e participar nesses 15 dias em que passamos juntos. Mas tenho certeza que aquele céu rosa pintado por cima da cabeça de papai, dos meus irmãos e da minha é uma imagem bonita e serena que vou carregar comigo por todos os próximos anos.





O céu azul do Rio de Janeiro

Nesse inverno de solzinho incessante e brando, o céu inteiramente azul se mostra o maior atrativo da cidade do Rio. Claro que digo por mim, que, mesmo amante do verão, fico sempre com saudades desse tom de azul que só o outono e o inverno são capazes de fazer. Com perfeição. Um azul que não estoura, não ofusca e não derrete, vazando. Azul, puro, esculachando com todas as demais possibilidades celestes.

E é nesse período em que a canguinha estendida no chão de areia fria se torna minha companheira mais requisitada. Não quero me bronzear, apenas deitar, alí, e existir com um livrinho ou fatia qualquer de sono insistente nesse periodo. Não há o intuito de pegar uma cor, mas a vontade segura de quarar. Como fazem com as roupas. Quarar ao sol. 

Até então, nunca havia pensado na diferença entre pegar sol no verão e no inverno. Hoje, é tão clara. Uma diferença abissal entre elas. No verão, transmitimos luz. No inverno, ao contrário, nos deixamos iluminar. Em paz.

Dos diálogos incríveis

C- As pessoas são cheias de camadas.
Seria incrível saber onde podemos pisar sem magoar, né?

A - Ah, seria. Se seria.

C-  E seria ótimo ter um alarme na gente. Faltando pouco pra magoar, ele apita bem alto pra pessoa em questão.

A - Mas tem gente q ouve o alarme e quer pôr no soneca.

segunda-feira, julho 21, 2014

Nossa casa

Acredito que nossa casa, bem como os nossos amores, onde for, seja nosso retiro espiritual. 

Não importa se enorme, com vários cômodos ou se apenas um quartinho alugado. É o nosso porto seguro. É pra onde voltamos no fim daquele dia cansativo. É onde nos recolhemos pra chorar na água morna do chuveiro quando "deu merda". É onde recebemos as pessoas que mais confiamos e queremos perto. Na nossa casa, como no nosso coração, há espaço pra muito afeto, mas apenas para os de comunhão. Aprendi que, como o coração, não se abre a porta toda hora, pra todo mundo, não é uma fratura exposta que peleje por atenção e quantidade.

Não tem espaço pra energia pesada exterior. Não cabem os olhos gordos. É o nosso canto e tem que ser respeitado como respeitamos a nós mesmos.

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Tem quase um ano que estou de "casa nova" e ela custou a se transformar num lar, no nosso canto, com a nossa cara. Eram paredes e espaços esperando por nós, que nunca chegávamos de corpo e alma. Hoje, quem entra aqui, seja pela sala ou cozinha, consegue sentir o aconchego e a identidade. Quem me conhece um pouco e também conhece mamãe, identifica sem sacrifício que esse é o nosso lar. É a gente em detalhes, em retalhos, em cores e formas. Em cada cômodo tem um pedaço de nós, idealizado e feito por nós. Olha-se uma cadeira e é possível lembrar como ela foi feita, desde a escolha da cor da tinta até a confecção, os reparos. Olho a parede de azulejos e lembro da tarde inteira batendo cabeça na Frei Caneca pra fazer o mosaico mais bonito. Meu quarto, minha mesinha de cabeceira, eu alí. Em tinta, vidro e madeira de rua. O espelho de janela, a mesa de carretel, as subidas e descidas pela rua com materiais garimpados e, depois, repaginafos ao nosso gosto, com nosso toque. A cara de pau pra conseguir esses materiais. "Um eterno ateliê", como dizem os que aqui chegam e acompanham a trajetória da casa que nunca termina, mas que tem sempre espaço entre uma lata de tinta e outra de cerveja pra receber os amigos.

Eu não vejo a hora de terminar. E também não vejo a hora de terminar pra saber o que eu já sei: que ela não termina. Que é ad infinitum, eterna mutação. Igual a gente.


momentos 'finais'

quinta-feira, julho 17, 2014

O perfume suave da memória

Resgatar memórias é um sopro de vento pra trás e ao mesmo tempo pra frente que deixa a gente mole, molinho. Uma confusão com os sentimentos atuais e os de outro tempo. Quando se trata de memória gostosa, com cheirinho e aconchego de infância, a viagem se torna ainda mais longa. E emocionada. Tenho certeza que seja assim com todo mundo que carregua um coração no peito.

Ontem, pude ver nas lágrimas de Gustavo, essa emoção resgatada. Em tato, descrença no que tava vendo, em cheiro, choro e sorrisos. O mais maluco foi chorar junto por algo que não vivi, mas o fato do resgate da lembrança ter sido feito por mim, foi como se eu tivesse, naquele instante, mergulhada naquele pedaço de história que sequer me pertence. Uma fenda no tempo: Gustavo atracado em seu Snoopy que existe há 30 anos. Hoje, sem a blusa de botão branquinha e a bermuda caqui, ambas perdidas no tempo pelas traquinagens daquele garotinho dentuço. Hoje, um Snoopy nu de roupas, mas vestido de muito, muito amor.

À Cristina, meu muito obrigada pelo carinho, ajuda e confiança.


"amarradão' habitando o novo lar