quarta-feira, novembro 30, 2016

Buraco da Lacraia, uma Tatuagem no peito

* esse é um texto/carta que tá aqui não com o objetivo de todo mundo ler, já que só envolve duas pessoas - mas pra que daqui muitos anos ele continue existindo. *

Há pouco mais de três anos eu entrava naquele buraco que mesmo com trocadilho uó, não esperava que um dia fosse ser tão embaixo, tão fundo. Tão intenso.

Entrei em uma festa, era festa do povo de cinema. Já fui achando que seria blasé, que seria chata, que o povo ia ficar fazendo pose, que eu ia trabalhar bastante pra que aquilo apenas fosse. E eu tava certa. Mas cheia de ficha de cerveja de graça, ainda que Itaipólvora, podia ir todo mundo embora. Meus amigos foram, um a um, eu não. Seus amigos também, um a um, você não. Eu ali cantando Fagner no Karaokê, blusa de zebra laranja e preta. Cabelos bem longos presos para o alto. Uma franjinha tímida. Você ali embaixo, no balcão, provavelmente de blusa preta. O livro com a lista infinita de músicas nas minhas mãos. Brota você. 

Há pouco tempo esse dia se tornou muitíssimo importante pra mim e mesmo que ele nunca tenha sido importante até então, acho que lembraria por muito tempo de você me dando mole naquele balcão e eu em um ato de susto com seu quase beijo, me esquivando e perguntando se você tava doido. 

Seguimos colegas coniventes daquela noite, afinal, precisava de alguém pra dar cabo de tanta cerveja. E você precisava de uma foto saltando. Um costume, uma tradição, blá blá. Na hora achei bem Q? mas já tinha sacado a câmera, quem sou eu pra julgar?

Dia feito, já era bem de manhã. Um pulo em frente a um caminhão. Foto tirada de primeira. Você mentindo que foi a foto mais foda que já fizeram de você saltando. Eu fingindo que acreditei porque discordar e engatar em mais papo a essa altura seria motivo pra permanecer ainda mais ali naquele buraco que parecia não ter fim. Você na porta com um bico pedindo pelo menos um selinho pra ir embora - isso eu tinha deletado e rolou mesmo! E fico toda toda que você com sua bosta de memória lembre disso. 

Tu perguntando meu whatsapp pra eu enviar a foto. Eu dizendo que não tinha whatsapp mesmo sabendo que você ia achar que é mentira mesmo sendo verdade.  Eu perguntando se tu tinha facebook que mandaria por lá. Você dando seu facebook enfatizando que era com dois G`s. Eu dizendo que ok, mandaria por lá. Você dizendo que eu não mandaria em tom de desafio. Eu desafiando que mandaria em alguns minutos. Eu te mandando em alguns minutos. Você respondendo horas depois que só agora (já era noite) havia chegado em casa de um after que nunca terminou. 

Umas boas semanas seguintes puxando uns assuntos aleatórios. Perguntando qual a boa. Se não ia mais me encontrar por aí. Onde me encontrar por aí. Eu não queria encontrar o playboy pedante que criei baseado em uma vida de buatxis nas redes sociais. E no quase beijo roubado sem meu OK. E naquele corte de cabelo meio sei lá.

Tempos depois o playboy pedante re-reaparece em um janeiro quente e molhado e dá uns sete tapas na imagem rasa e leviana que criei. E também no meu sossego. Ainda bem!

Hoje voltei pela primeira vez no Buraco da Lacraia, depois de todo esse tempo, olhei aquele balcão e veio um turbilhão seguido da pergunta:

Não era playboy, não era pedante, por que caralha não te beijei antes?

<3









quarta-feira, novembro 23, 2016

Engatinhando

Meus olhos famintos engolem cenas casos cores.
A voz ansiosa se destrambelha e vomita o verbo coisar as coisas, coisificados, coisados, coisando tudo.
A palavra escrita ainda é minha maior aliada. Voltei a escrever.

quarta-feira, outubro 26, 2016

Doce cinza

O amor vai circulando junto com as cuecas que passam entre minhas pilhas de roupas limpas. Vem uma preta, vai  uma preta, vem com uma preta, volta com uma preta, larga uma preta na escrivaninha, pega uma preta da gaveta, chega com uma cinza e é quando percebo que esse ciclo existe há meses e eu só saquei agora porque você só usa preto e demorou 8 meses pra deixar uma cinza.

Peguei-a nas duas mãos e naquele ato de fechar os olhos pra sentir melhor, cheirei tão cheirosinho de amaciante: cheiro de amor novinho que carrega por ali pedaço de história. 

segunda-feira, setembro 12, 2016

Nem tudo tem que ser conversado

Eu sou a pessoa do tim tim por tim tim. Preto no braco. Águas claras. Sempre fui. Esses dias vi que talvez não seja assim pra sempre. Esclarecer demais pode ser porta pra confundir. Diálogo é importante mas palavra a mais azeda. Tem coisa que acontece e que não tem que virar conversa. Aguarda. Dissolve. Entende. Ou entende e dissolve. Resolve. Resolve-se.

quinta-feira, agosto 25, 2016

A língua e a pipa

hahahaha ria o menino embaixo da mesa enquanto dividíamos uma quentinha de maneira injusta: eu comendo e ele brincando com meus pés. Vem timbora, senta aqui, vamos comer. hahahaha não, não! Vem, antes que eu acabe com a comida toda! ahahaha tia, você fala errado. Jeferson, Davi, Fernando, olha, olha, ela fala errado! Timbora, Tttttimbora, ela fala assim bem doido! bem doido, bem doido! Oito dedos me apontando enquanto os ombrinhos magros saculejavam dentro de uma gargalhada infantil que já terminou mas ninguém assume o fim primeiro sem conivência. Engata em outra. Em outra. Agora mais leve. Um olhando para o outro na espera pelo sinal do cair no chão de tão cansados que ficaram de rir da cara da tia que fala errado.
Eu não falo errado, eu falo diferente. Vocês não falam errado ou mais certo que eu, vocês também falam diferente. Vai parecer uma loucura o que vou falar mas no mundo inteiro tem muita mas muita gente mesmo que fala diferente. Diferente de mim e de vocês, cada um de um jeito. Um monte de gente diferente.
Que mentira, tia. Eu entendo o Davi, o Jeferson e eles são o mundo inteiro porque eu só conheço eles. Não Lucas, é verdade, tem aquele pessoal que fala de outro planeta, que vem aqui visitar e a gente entende menos que a tia mas eles compram pipa.
Pois é, o Brasil é um país muito grande e tem um monte de gente espalhada por ai que fala diferente, isso se chama sotaque, e a gente entende. Vocês sabiam que fora do Brasil ainda tem vários outros países que falam de um jeito mais diferente ainda e que se a gente não estudar pra aprender é impossível de entender? Não são planetas, são países, igual o Brasil. Se a gente for lá onde eles moram ninguém entende se não tiver estudado também.
Que mentira, tia!!! A tia tá doida!!! A tia tá doida!!! Tia, o Santa Marta fica dentro do Brasil?
Fica.
E por que então esse pessoal de outro planeta que compra pipa só tira foto da gente e fica rindo vermelho quando a gente fala? Eles não estudaram?




domingo, agosto 21, 2016

Sobre o amor e seu trabalho silencioso II

O riso nervoso sobre a tua fala -
Eu te amo
Ama nada



Susto e alívio: você me amando, em voz. Não adorando naquele te adoro que não levo muito a sério porque parece quarta série, não gostando muito que é a frase que sei falar, não doido por mim nas madrugadas em Botafogo: amando. Te amo saindo de sua boca de coração tampada quase que por completa por um bigode não aparado. 

Essas duas palavras mais vastas que um alfabeto inteiro, que inconstitucionalissimamente, que engasgam bem no centro da garganta e causam rebuliço e tremedeira em um ouvido fora de forma. 

Foi pororoca. Rebento. Planctons. 

Acordei. Isso aconteceu. Foi o álcool, foi o momento, foram os astros, errou a palavra, errou a pessoa, falhou no cálculo, era uma música. Quantas desculpas. Criei uma por uma pra te justificar. Te contei. Você já sabia. Era verdade: eu te amo. 

Logo você, quem diria. Segurou na minha mão e foi. Fomos. 2x0 a gente.








quarta-feira, agosto 10, 2016

Sobre o amor e seu trabalho silencioso

A gente vai caminhando sem nem se dar conta enquanto um toque específico, o cheiro, os segredos, a voz e os sorrisos vão trabalhando em silêncio, quem sabe até mangando de nossa cara, e se tornando mais potentes que qualquer palavra amor.



Foto: vidafodona.com